quarta-feira, 9 de abril de 2014

Gente rasa e o fundo do poço

Uma breve divagação sobre gente rasa e o fundo do poço: quem é raso vive, aparentemente, melhor do que quem está no fundo do poço. A superfície é o topo, o olhar de cima, é estar aquém do peso que a pessoa lá do fundo tem que suportar. Não mergulhar garante ar infinito, combustível para gozar da leveza de não se deixar ser segurado. O fundo do poço é doído, penoso, incerto... pesado. O prazer de ver a luz la no topo é grande, mas a gente sabe que está distante, que agora não dá. Tem outras coisas, tem mais gente, não dá pra flutuar. A gente sabe que não dá pra se desfazer do peso da responsabilidade, do afeto, da lealdade, do amor... o fundo pesa, mas é real. É de verdade.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Feito de papel


Desistir também faz parte da sensatez. Nem sempre faz parte da simples fraqueza. Saber entender meus limites, aceitar que não dá mais, que não faço parte, é me respeitar. Sim, admito que não posso continuar nas aulas do curso de Designer Gráfico. Não dá. Não é justo comigo nem com meus colegas de sala. Imaginem fazer um trabalho em grupo/dupla comigo? Não quero fazer, não tenho vontade. Poucas vezes fiz alguma atividade que eu realmente tenha sentido orgulho. No fundo eu nunca me vi vivendo fazendo aquilo pra sobreviver até quando a natureza quiser. Saia do trabalho e ia pra aula furioso com o trânsito, com as pessoas mal educadas, cansado do dia estressante... Só pensava em chegar na sala e chamar minhas amigas pra uma cerveja e um churrasquinho de gato lá fora comigo. Ah, era a minha salvação umas três vezes na semana, pelo menos. Nos laboratórios eu olhava ao meu redor e via as pessoas produzindo, e eu lá... parado... zumbizando pela internet. Eu me esforçava, juro. Participava na produção das peças quando era trabalho em grupo (no último foi um esforço sobrenatural, diga-se de passagem. desculpa aê, Helo!), gostava bastante das aulas de Comunicação, inclusive. Mas, cara, era pesado ter que ir e vegetar até a hora da chamada, responder “presente” e partir. Aquilo não fazia mais sentido pra mim. Na verdade já não fazia há muito tempo. Quando voltei às aulas nesse ano entrei numa de “Agora eu não desisto. Vou terminar essa bosta”. Quanto desrespeito comigo mesmo. Eu não preciso terminar se eu não quiser. Eu já entendi e aceitei que não é pra mim, pelo menos não agora. Quero fazer outras coisas.   Preciso de uma segurança maior no meu futuro. Não dá pra “terminar por terminar”. Se algum dia eu sentir vontade, eu volto. Faço de outra forma. Mas hoje não. Hoje eu voltei pra casa depois do trabalho. As pessoas mal educadas estão cada vez piores, o trânsito cada dia mais cagado (oh, MOVE), as responsabilidades cresceram e há dias em que o estresse parece tomar conta da parede até o teto. Voltarei a tomar cerveja somente aos finais de semana e chamarei minhas amigas pra isso. Agora eu sinto um alívio. No meu canto, no meu tempo, no meu teto. Tá tudo bem, vou recomeçar.



“Preciso aprender a me respeitar
Saber de quem eu devo me afastar”

quinta-feira, 6 de março de 2014

Pra ter fim

Eu queria continuar, ir até o fim. Eu queria sentir a decepção mais pura. Mais real. Não foi o suficiente pra mim, queria ir mais longe. Queria sentir mais, gozar mais, doer mais. Quero. Quero que o desejo volte para dilacerar o que restou de bom. Não quero mais lembrar o que foi bom. Eu quero um fim trágico, doído. Quero sentir o gosto amargo da lembrança do seu gosto que eu gostava de gostar. Eu quero terminar. Quero chegar no começo e ir até o fim, até o último suspiro, a última gota, o último toque, o último jamais, o último não tem mais jeito. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Vinte e alguns

Tá batendo aquela neura do “tô ficando velho e não tenho porra nenhuma”. O que eu quero ter, enfim? Tudo que penso em conquistar parte de um ideal da “sociedade normativa”: dinheiro, sucesso profissional e talvez uma família. Tudo bem que essas coisas são realmente necessárias já que a gente precisa de dinheiro pra sobreviver e pra ter dinheiro a gente precisa trabalhar. Mas o que gera a angústia é não saber o que vou fazer pra ter uma vida financeira saudável. A resposta pode parecer simples pra maioria das pessoas, pra mim não é. Não consigo me imaginar fazendo algo que não gosto, só para ter grana. Tem que ter alguma paixão ali. Tenho procurado me encontrar em alguma coisa que possa me trazer a estabilidade profissional e financeira que desejo, mas tá foda. Nada parece ser pra mim. Eu me sinto incapaz de tudo. O mundo me causa medo. O meu olhar é o desenho do desespero. Fico louco quando começo a pensar que posso ser um fracassado eminente. Que vou passar o resto da vida fazendo o suficiente pra garantir as contas do mês e mais nada. Que todos os dias terei que me preocupar doentiamente com o saldo negativo, com a segunda-feira que vem trazer mais uma semana de tortura do “tem que correr, correr, tem que se adaptar”. Meu maior medo é não poder relaxar um dia. Não poder fazer o que gosto por não saber o que gosto. Meu maior medo é o fracasso.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

“CHEGA! PAREM! PARE!”

O caos mental é tudo que ele tem. Mais nada. Tudo que ele não tem é o sossego de uma noite bem dormida, um afago do amor no fim do dia, o silêncio do nada... Tentam de todas as formas ensiná-lo a fingir, dizer e pensar que poderia estar pior, mas ele não quis aprender. Faltou coragem e saco pra tanto. Não conseguia ver carnaval em meio a tanto velório. Nem mesmo ele sabia onde estava seu céu, quais milagres precisava para se sentir completo e vivo de verdade. Ele se sentia só e mal acompanhado. Corria, corria muito e se cansava. Todas as vozes de si mesmo eram seu combustível para nunca parar. “CHEGA! PAREM! PARE!” Ele gritava pra si mesmo, mostrando olhos silenciados para quem o olhava. Elas não chegam, elas não param, ele não para. 

domingo, 15 de setembro de 2013

Um pouco

Um pouco de fantasia
Pra curar a mania de arder à dor do dia
Um pouco de harmonia
Pra sentir que a vida pode ser boa e não só melancolia
Um pouco de amor
Pra fingir que a felicidade não é só minha
Um pouco de paciência
Pra saber que a palavra necessária só pra frente caminha
Um pouco de aflição
Pra saber que nem tudo é happy end, comemoração
Um pouco de rebeldia
Pra saber que a sarna coça, sem distinção
Um pouco de família
Pra entender que a calmaria acaba no fim do dia
Um pouco de atenção
Pra perceber que não estou sozinho
Um pouco de amigos
Um pouco mesmo, bem pouco.
Um pouco de sexo
Todos os dias, pra ter um relaxante por perto
Um pouco de louco
Um pouco de torto
Um pouco de morto

É isso.

Tá perto.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Gato

Seu sobrenome é Gato. Cheio de manha, vontades, peculiaridades. Nunca fui de me apegar aos felinos. Principalmente os de miado muito mole e sedentos por atenção. Sempre me encantei por tigres ou leões: imponentes e destemidos. Esse Gato é atrevido, mas teme não ser querido. Então, logo dá seu jeito de se esfregar aqui e ali, buscando toda atenção que precisa para se sentir vivo. Os olhos do Gato, de uns tempos pra cá, andam se encontrando com os meus. Eles não se dão. Às vezes se ignoram, outras poucas namoram. Mas é rápido, eles não se apaixonam. Sem apegos. O Gato usa botas lindas e surradas, sujas de lama que não sai dali. Eu sempre a vejo, é memória que eu não devo esquecer, é para eu saber por onde ele andava enquanto eu me encontrava. Apesar de eu relutar, não encarar, amar os caninos e felinos de grande porte, esse Gato tem ganhado minha atenção. Mais do que merece, diga-se de passagem. Não, não quero admitir que, se ele quiser, pode se esfregar em mim pra fingir que fez muito pra me ganhar. E não vou admitir. Não mais. O que me mantem sempre arisco é toda aquela lama, que eu quero ver sempre; para saber por onde procurar esses miados sedentos por mim, que sempre dou toda minha atenção. O Gato está indo sujar um pouco mais suas botas. E eu? O que eu vou fazer? Vou escutar seus miados e fingir que eu não me apego, dando toda minha atenção. Afinal, é disso que ele precisa pra ser assim tão Gato.